quarta-feira, agosto 21, 2013

Você quer ser líder?






Se perguntarmos as pessoas, talvez de chofre, muitas respondam que “é claro, que sim, eu quero ser líder!”. Afinal, ser líder numa profissão, numa organização, num grupo, ou numa sociedade e em um sistema econômico como o nosso, onde a competição é uma prática corrente nas relações, ser líder é visto como o vencedor, aquele que se destaca como o melhor, é ter sucesso.

As pessoas tendem a pensar que a idéia de liderança traz em si apenas algo que seja bom. Isto é, ser líder é ter autonomia, liberdade, é ser uma referência de sucesso, é ter seguidores e estar, de certa forma, “investido de poder”. É ser alguém que faz as coisas acontecerem, é ser admirado e respeitado. Assim, quem não gostaria de ser líder?
Diferentemente dessa visão romântica e idealizada, me parece que as coisas podem ser um pouco mais complexas e, por isso, insisto em perguntar: “o que você está disposto a perder para ser líder?” Essa pergunta talvez surpreenda porque levanta a suspeita que ocupar uma posição de liderança pode não ser uma coisa boa. Num mundo onde todos parecem querer ser líderes e ter sucesso, o que se deveria perder para chegar lá? Afinal, este “lá” não é o lugar “certo”? É preciso perder algo? Não é através do acúmulo de conhecimentos, competências, habilidades e atitudes que chegamos “lá”? Não seria este o norte, o caminho?
Como diria Bauman, Lipovetsky e tantos outros vivemos num mundo onde quebramos a “jaula que nos prendia” ; hoje podemos construir novas relações, novas profissões, novos valores. Não estamos mais presos a padrões sociais tão rígidos, há uma multiplicidade de formas de ser e de viver. Estamos “desbussolados”, como diria Jorge Forbes, sem saber mais o que nos norteia (valores, regras, profissões, formas de relações afetivas, etc) e vivendo num mundo onde o instante se impõe a nós, como um “presentismo”(como disse em “Sobre o tempo e o gerundismo”). Sem saber o norte, muitos se espelham naquilo que se encontra mais à luz, mais em evidência e mais padronizado como “certo”. Quando olhamos para uma pessoa que se destaca, seja numa organização, seja na política, seja na mídia em geral (como artistas, por exemplo) tendemos a pensar que liderança e sucesso são coisas boas. Não nos perguntamos se de fato queremos ser líderes e quais os preços que vamos pagar para ocupar esta posição. Muito menos, procuramos compreender o que se passa atrás dos palcos da vida desses que tomamos como exemplos, apenas pensamos como é bom estar à frente do palco e receber os aplausos.
A posição de líder traz junto consigo aspectos quase nunca citados nos livros de liderança ou nas revistas das celebridades (executivas e artísticas). O líder não provoca apenas admiração, provoca também inveja, fofocas, reações agressivas, hostilidade e, além disso, encontra à sua frente muita angústia e solidão. Lidar com esses sentimentos pode não ser algo agradável. Depois de muita busca, muitos acabam se ressentindo das novas relações que emergem a partir dessa nova posição. É comum encontramos grandes líderes se queixando da dificuldade de lidar com a angústia e a solidão nas tomadas de decisões (que passam a ser cada vez mais constantes e intensas ), muitos acabam se ressentindo da hostilidade que passam a receber, sentem-se solitários e rejeitados, embora sejam admirados e seguidos por muitos.
Essa situação ambígua, que a liderança traz em si, pode ser difícil de se lidar com ela, mais ainda quando não se está preparado para isto. Muitos não sabem por que chegaram a ser líderes, isto é, não foram se perguntando se, de fato, era isto que queriam, não gastaram tempo indagando se este era mesmo o caminho a trilhar e quais seriam suas conseqüências. Colados num discurso padrão de que ser líder é “ser o bom”, não conseguiram ponderar os preços que poderiam ser cobrados, passando a buscar algo apenas orientado por uma imagem, um ideal romântico de que o “certo” é ser “o líder”, “o cara”.
É por isso que insisto na pergunta “você quer ser líder?” isto porque não vejo as pessoas preocupadas no porque querem ser líderes, em como alcançar este objetivo e quais as possíveis consequências desta escolha. Dois exemplos, um da literatura e outro do cinema, marcam bem o dilema desta escolha. Penso nestas referências porque das artes podemos extrair o que temos de mais humano, a compreensão da nossa complexidade. Isto é, nossa estranha forma de sermos razão e sensibilidade (emoção) ao mesmo tempo. No livro Grande Sertão Veredas, o personagem Riobaldo não se enganou e viveu seu dilema até o fim. No meio do caminho era preciso fazer um pacto (seja com o “demo” ou com ele mesmo), era preciso “fechar o corpo”, abrir mão de uma forma de vida para adentrar uma outra onde a coragem deveria prevalecer para fazer o que ele queria, isto é, conduzir um grupo de jagunços através das querelas do sertão. Tomar a liderança do grupo não é algo que simplesmente acontece, há aí um dilema. Do filme Matrix, Neal também vivenciou este momento. Não fez um pacto, mas buscou o olhar de um outro, que o nomeasse como líder. Procurou no Oráculo a resposta se era “o escolhido”. Mas, como sabemos a pergunta não é respondida, uma vez que a resposta está sempre naquele que pergunta. É ele quem tem que decidir e assumir a responsabilidade de ser “o escolhido”. Nos dois casos, os personagens sofrem com o processo de se tornarem líderes, nenhum deles acorda de manhã e sai inspirando as pessoas, coordenando equipes e sendo ótimos comunicadores. Há um processo interno, um querer e assumir o que se quer, um pressentir e apostar na liderança como algo bom e ruim ao mesmo tempo e, ainda, uma suspeita de que este seja um caminho difícil, e que antes de tudo, é necessário estar em paz com esta escolha.
*Psicóloga (psicanalista) e administradora, mestre em administração, professora universitária em cursos de graduação e pós graduação, consultora e sócia-diretora da Estação do Saber.
Fonte: Júlia Andrade Ramalho Pinto

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